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Como as pessoas podem ganhar dinheiro com os seus próprios dados

A economia dos dados pessoais começa a ser discutida e já há empresas, como a suíça Vetri, que dão recompensas a quem compartilhar informações

POR Adriana Fonseca | 16/10/2019 14h19 Como as pessoas podem ganhar dinheiro com os seus próprios dados Foto (Unsplash)

Nos tornaremos comerciantes de nossos próprios dados? A ideia por trás da chamada “economia de dados pessoais” é simples: os indivíduos devem ter a possibilidade de assumir o controle sobre seus dados pessoais, compartilhá-los como bem entenderem e lucrarem com seu compartilhamento. Só que, como se pode imaginar, trazer essa ideia para o mundo real não é nada simples.

O tema está mais em alta do que nunca por aqui, graças à Lei Geral de Proteção de Dados, que entra em vigor no Brasil em 16 de agosto de 2020.

Hoje, embora nem sempre o consumidor tenha consciência disso, ele envia seus dados pessoais quase continuamente quando acessa qualquer página da internet. Mais e mais dados pessoais são gerados toda vez que se visita um site e se concorda com a coleta de cookies, quando se baixa um aplicativo, quando se faz login no Facebook ou no Instagram, a cada Tweet, lista de reprodução do Spotify e senha inserida no Google. Sem contar que cada passo dado com o Wi-Fi no bolso (ou na bolsa) e o GPS ativado no telefone, mais dados são compartilhados.

A forma como esses dados estão sendo usados é o grande xis da questão – e essa história está bem contada em um documentário disponível no Netflix, chamado “Privacidade Hackeada”, que mostra como a empresa de análise de dados Cambridge Analytica se tornou o símbolo do lado sombrio das redes sociais após a eleição presidencial de 2016 nos Estados Unidos.

Agora e daqui para frente, a norma diz que os dados são de propriedade do usuário, aquele que fornece a informação, e as empresas só podem armazenar e compartilhar esses dados com o consentimento explícito de quem os concede. Nesse cenário é que surge o conceito de “economia de dados pessoais” e a ideia – ainda remota – de que cada um de nós poderia ganhar dinheiro com seu próprio dado.

dinheiro Foto Sharon Mccutcheon (Unsplash)

Quanto custam os dados?

Esse é um valor que ainda não está claramente determinado, mas se pode chegar a aproximações. A Vetri, uma empresa suíça que gera recompensas a quem compartilha seus dados, realizou uma publicação sobre o assunto.

Com base nas demonstrações financeiras anuais do Facebook e de outros grandes vendedores de publicidade, o Data Driven Marketing Institute chegou à conclusão de que a publicidade direcionada usando os dados pessoais de um usuário médio da internet gera aproximadamente US$ 60 em valor a quem fornece o dado. Com um número estimado de 3,5 bilhões de usuários ativos, o valor total do mercado seria de aproximadamente US$ 210 bilhões.

“Os especialistas concordam que esse número continuará a crescer, embora ninguém saiba exatamente como, pois atualmente estamos trabalhando apenas com estimativas”, diz o texto da Vetri.

Hoje, no entanto, o mercado não opera com dados de pessoas individuais, mas com enormes conjuntos de dados de milhares de usuários mais ou menos anônimos. Então não se sabe se as empresas e os publicitários estarão dispostos a pagar por dados individuais.

Ainda segundo a Vetri, informações gerais como nome, idade, sexo e local de residência são muito baratas, custando apenas US$ 0,0007 por item. Por outro lado, os preços dos dados no histórico de consumo e nos interesses pessoais são mais altos, mas ainda assim nada que chame muita atenção. Por exemplo, um banco de dados com os nomes de pacientes que sofrem de uma doença específica custa cerca de US$ 0,30 por nome.

A Vetri, como não podia ser diferente, é otimista em relação a esse mercado de venda de dados.

“Atualmente, grandes empresas como Apple, Facebook e Google, bem como dezenas de corretores de dados pessoais, estão enriquecendo com essas informações. No entanto, se usuários individuais começarem a se encarregar de seus dados, essa situação poderá mudar rapidamente. Um pré-requisito básico para que essa mudança ocorra é a vontade de compartilhar dados. Isso é realista? Parece que sim”, aponta a empresa suíça.

“De acordo com a agência SAS e analistas da Future Foundation, até 69% dos millennials (pessoas de 16 a 34 anos) estão dispostos a compartilhar seus dados pessoais se a venda desses trouxer benefícios reais. Sessenta e sete por cento deles forneceriam dados no setor de saúde, 57% no setor financeiro e 50% no setor público, enquanto 45% compartilhariam seus dados com fornecedores de energia, 32% com comerciantes e 28% com a mídia. Se esses pré-requisitos forem cumpridos, os indivíduos poderão, no futuro próximo, se tornar tão importantes no mercado de informações quanto os gigantes da tecnologia”, conclui.

dinheiro Foto Artem Beliaikin (Pexels)

Prós e contras desse novo mercado

A Nesta, uma organização sem fins lucrativos do Reino Unido focada em ideias inovadoras para mudar o mundo para melhor, tem uma equipe dedicada a um projeto sobre a “economia de dados pessoais” e estuda o tema desde 2012.

John Davies, pesquisador de economia criativa e análise de dados, publicou um texto em que aborda quatro implicações desse novo mercado.

“Em princípio, permitir maior transparência e controle no uso de dados pessoais deve facilitar novas formas de atividade econômica. No entanto, existem algumas razões para suspeitar que pessoas desempenhando um papel muito ativo no gerenciamento de seus próprios dados não será como se imagina”

John Davies, pesquisador de economia criativa e análise de dados da Nesta

1.As pessoas podem não aderir, mesmo que seja interessante economicamente

Há evidências de que os consumidores podem não estar dispostos a se envolver, mesmo quando são apresentadas opções que os beneficiariam economicamente. Só porque as pessoas têm oportunidades de negociar, isso não significa que elas o farão.

O regulador de energia do Reino Unido, por exemplo, estimou que a economia média da mudança dos fornecedores atuais de eletricidade e gás para a melhor tarifa disponível seria de aproximadamente 100 libras por ano. No entanto, a maioria dos usuários não mudou de fornecedor, e a diferença de preço permanece praticamente constante desde 2008. As tarifas de energia podem ter complicações, mas a energia é, em última análise, um produto simples e a eletricidade e o gás vendidos por uma empresa são fisicamente indistinguíveis um do outro.

2.Os dados não são uma mercadoria simples

Ao contrário da eletricidade, os dados não são uma mercadoria muito heterogênea. Os dados de uma pessoa não são iguais aos de outra e não está claro por quanto deve valer a pena vender essas informações. Além disso, quem entende melhor o valor comercial dos dados não são os indivíduos que os geram, mas as empresas que já possuem muitos deles e dedicam recursos extensos para analisá-los. O grau limitado em que as pessoas estudam atualmente as condições e os termos complicados associados a seus dados mostra alguns dos desafios para envolver o consumidor nesse assunto.

3.Grande parte do valor comercial dos dados pessoais não existe no nível individual

Os dados pessoais de um indivíduo, isoladamente, fornecem informações sobre o que ele fez anteriormente, mas não são necessariamente tão informativos sobre coisas novas que ele pode gostar ou que podem acontecer com ele (dados de outras pessoas ajudam a resolver isso). Como resultado, os dados pessoais valem mais quando combinados com dados de muitas outras pessoas. O processamento analítico de grandes quantidades de dados é o que cria grande parte do valor dos dados. Os dados individuais, ao contrário, provavelmente têm valor limitado. Além disso, no contexto da publicidade, normalmente o valor vem da capacidade de exibir anúncios para um grande número de pessoas, e há algumas evidências empíricas que sugerem que o valor de poder segmentar anúncios é comparativamente baixo.

4.Já existe um mercado secundário de dados pessoais

Um mercado secundário, de “segunda mão”, para dados pessoais já existe – embora a maioria das pessoas cujos dados são negociados não tenha conhecimento disso. Os corretores de dados coletam informações que estão publicamente disponíveis sobre nós e revendem essas informações para as empresas. Estima-se que os principais objetivos disso sejam munir o marketing de informações para direcionar publicidade e segmentar clientes e permitir que as empresas avaliem o risco de produtos de crédito, seguro e risco de fraude.

Pode haver uma ampla variedade de fontes potenciais desses dados, como cookies do navegador e informações sobre atividades de mídia social disponíveis nas APIs.

Há também evidências de que certos aplicativos móveis extraem informações pessoais extensas sobre nós. A existência de muitas informações acessíveis sobre as pessoas e a facilidade com que elas podem ser copiadas impõem restrições ao valor econômico dos dados.


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