Como eu descobri o empreendedorismo - WHOW

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Como eu descobri o empreendedorismo

Em sua coluna inaugural para o Whow!, Marcus Nakagawa explica como o empreendedorismo permeia sua trajetória

POR Marcus Nakagawa | 09/11/2021 18h23

Na escola em que eu estudei, lá no interior de São Paulo, tinha um menino que vendia brigadeiros em todo o recreio. Mesmo sendo uma escola particular com muitos amigos bolsistas, este em específico tinha um padrão de vida na média dos outros alunos e alunas. Quase todo dia ele pegava a caixa de plástico transparente e saía vendendo seus doces. Primeiro, oferecia para os professores e adultos, depois ia de grupinhos em grupinhos de alunos apresentando os brigadeiros e vendendo – sempre longe da cantina que também vendia brigadeiros. Aceitava dinheiro e tinha um caderninho que anotava quem ficava devendo. E, no dia seguinte, ia cobrar e oferecer novamente. Eu não entendia por que ele fazia isso em vez de brincar!

Lembrando destas cenas todas das minhas memórias me pergunto onde está este menino agora. O nome dele não era Elon Musk, nem Bill Gates, nem Abílio Diniz, nem Alexandre Costa, nenhum destes empreendedores famosos.

Acredito que cenas como estas você já deve ter visto muitas e muitas vezes. Quando cheguei em São Paulo e pegava ônibus, tarde da noite sempre apareciam jovens como este vendendo brigadeiro para as pessoas paradas no ponto de ônibus. E o mais interessante é que eram estudantes que tinham acabado de sair também da faculdade e o discurso era que o brigadeiro sustentava a sua vida na academia, além dos estágios e trabalhos.

Tive a oportunidade e o esforço de estagiar e trabalhar em diversas frentes e segmentos, desde ONGs, multinacionais, empresas prestadoras de serviços e até montei algumas organizações empresariais, associação, entidades estudantis e uma ONG. E sempre me deparei com estas pessoas que já nascem com o dom de ver em toda a ação uma venda ou um produto a ser desenvolvido. Ou ainda, a elaboração de uma melhor proposta de valor do que o atual (um brigadeiro de leite ninho com Nutella, por exemplo).

Em uma das organizações que fundei, uma empresa mais tradicional, acabamos lidando com muitos empreendedores e empreendedoras que estavam nos momentos iniciais ou na decolagem dos seus negócios. Tive muitas interações e, como cuidava da parte de marketing e comercial, tinha que conhecer a fundo os negócios destes “prospects” para fazer uma ótima proposta de trabalho. E as perguntas que eu sempre fazia eram: Aonde você quer chegar? Como você se imagina chegando nesta sua organização ideal? Quem são os seus clientes ou consumidores? Tentava extrair os pontos de objetivos que este empreendedor tinha e, principalmente, se este negócio e o seu principal líder tinham um foco.

Muitos não chegavam nem na metade de onde poderiam chegar, pois estavam fazendo o negócio para sobreviver. Pois é, estes são a grande maioria dos empreendedores no Brasil, que fazem negócios para pagar os seus boletos do mês e levar o leite para as crianças em casa. Nesta pandemia, vimos muitas pessoas desempregadas fazendo este famoso brigadeiro, além de bolo, coxinha, pão, artesanato, entre outros. Temos muito a aprender com eles e elas também. Perguntem, conheçam, entendam, fiquem sempre de olhos abertos e ouvidos atentos para escutar essas histórias de empreendedorismo.

Além destas organizações, também fundei algumas outras dentro da faculdade, local em que me encontro hoje, completando mais de 10 anos de atuação. Como professor, no início desta nova jornada, tive o desafio de dar aulas de empreendedorismo e a oportunidade de estudar toda a teoria que fiz na prática ao longo da minha carreira. Mas o projeto mais bacana que implementei dentro desta matéria foi investir dinheiro nos alunos e pedir que, em um mês, eles me devolvessem o investimento com juros de 1%. A disputa era acirrada pois aqueles que conseguissem o maior valor comparativamente aos outros e dentro das regras, poderiam ficar com o lucro de todos os outros grupos. Mercado voraz, não?

Agora tenho a oportunidade de continuar dando aulas, continuar escrevendo, falando na rádio e na TV o que eu considero interessante e o que acredito. Continuo empreendendo na minha carreira, no meu nome, em palestras, workshops e em conteúdo nos seus mais diversos formatos de influência. E fico muito feliz de estar agora também no Whow! Este é o primeiro de muitos artigos que você acompanhará por aqui. Aliás, vai um brigadeiro aí?

Marcus Nakagawa é autor, palestrante e professor da ESPM; coordenador do Centro ESPM de Desenvolvimento Socioambiental (CEDS); idealizador da Abraps e da Plataforma Dias Mais Sustentáveis. Autor dos livros: Marketing para Ambientes Disruptivos, Administração por Competências e 101 Dias com Ações Mais Sustentáveis para Mudar o Mundo (Prêmio Jabuti 2019).