Entenda como são criadas as carnes de laboratório; novas pesquisas e investimentos - WHOW
Consumo

Entenda como são criadas as carnes de laboratório; novas pesquisas e investimentos

Entenda porque o mercado de carnes feitas a partir da clonagem de células animais está em alta. O Brasil tem iniciativas embrionárias no segmento  

POR Raphael Coraccini | 04/02/2020 13h26 Entenda como são criadas as carnes de laboratório; novas pesquisas e investimentos Foto Rodolfo Clix (Pexels)

A natureza entregou aos homens os vegetais e as frutas de maneira muito mais fácil do que deu a nós proteínas. Com o domínio quase total do homem sobre a natureza, o desafio já não era ser eficiente na caça, mas distribuir esses alimentos de maneira eficaz.

Uma das soluções foi dar à proteína vegetal a aparência da proteína animal. Outra opção, que está movimentando o mercado, é a criação de carnes de animal em laboratório para consumo sem a necessidade de abater os bichos, mas por meio da clonagem de células que interessam à alimentação humana. É a chamada carne de laboratório.

E os investidores estão vendo nessa nova opção uma oportunidade. Na semana passada, a startup americana Memphis Meat fechou uma rodada de investimento de 161 milhões de dólares, liderada por SoftBankTemasek Norwest. Essa é a maior rodada já registrada por uma startup de carnes cultivadas em laboratório.

Conceito de quase um século

A carne cultivada, que parece produção de filmes de ficção científica, já é um conceito antigo, da primeira metade do século 20, e teve sua primeira patente registrada nos anos 1990. O desenvolvimento da carne cultivada foi impulsionada pela indústria médica. A tecnologia que reproduz as células animais teve como primeira intenção reproduzir célula de órgãos humanos para transplante.

Mas foi a partir de 2013, com Mark Post, farmacologista holandês, e sua startup Mosa Meat, que foi produzido o primeiro hambúrguer de carne cultivada. A partir de então, a quantidade de empresas desenvolvendo carne por meio da reprodução celular se multiplicou.

Segundo o The Good Food Institute, são cerca de 30 empresas pelo mundo que afirmam estar desenvolvendo o produto final. E centenas de outras atuando em etapas intermediárias do processo.

carnes Foto Chokniti Khongchum (Pexels)

As etapas na produção das carnes de laboratório

São centenas de empresas trabalhando pelo mundo em cada uma das etapas de produção das carnes cultivadas. “Cada etapa é uma indústria nova que nasce”, afirma Gustavo Guadagnini, CEO e fundador do The Good Food Institute no Brasil, organização sem fins lucrativos que atua globalmente na promoção de proteínas alternativas, seja de base vegetal ou de tecidos cultivados a partir de células, nos setores de carnes, laticínios e ovos, ao Whow!.

1. Coleta de células a partir da linhagem celular

“Há empresas que tiram a célula-tronco de uma pena de um animal. Tem outros casos em que é preciso fazer uma biópsia e tirar uma parte desse animal, uma parte do tamanho de um grão de gergelim. É um processo quase nada invasivo”

Gustavo Guadagnini, CEO e fundador do The Good Food Institute no Brasil

2.Meio nutritivo

Depois, é preciso alimentar a célula pelo que é chamado de meio nutritivo, onde a célula vai passar a receber todo tipo de nutriente que receberia dentro de um corpo animal. “O meio nutritivo é muito comum na veterinária e na medicina. É um mercado que já existe e tem muita pesquisa sobre isso”, destaca o CEO do The Good Food Institute no Brasil.

O desenvolvimento da célula acontece dentro de um biorreator, que controla as condições de temperatura, pressão, umidade e outras variáveis. “Até aí, o processo é relativamente fácil”, afirma o especialista.

3. Crescimento organizado

A maior dificuldade durante o processo de produção de carne cultivada é promover o chamado crescimento organizado, ou seja, o formato natural de carne. Sem esse processo, é possível constituir a carne, mas ela sempre terá a aparência de carne moída.

4.Encaixe de células

A última etapa é a scaffold (andaime), que vai organizar as células de forma que se encaixem devidamente nas células de gordura ou do músculo, organizando, assim, o crescimento da carne e dando a ela a aparência de bife. Essa última etapa pode parecer uma trivialidade diante dos avanços anteriores. Porém, o consumo de bifes é muito mais valorizado do que de porções de carne disforme. Este momento do processo tem sido a obsessão de muitas startups e empresas do setor.

No Brasil, porém, a única empresa que está aplicada no desenvolvimento dessa tecnologia é a Biomimetic Solutions, ligada à Universidade CEFET-MG.

Fundo de pesquisa

O The Good Food Institute tem um fundo de pesquisa que abre inscrições para o processo seletivo, que começa em outubro de 2020 e será finalizado em março e 2021, para o desenvolvimento de novas formas de alimentação. Seis projetos nacionais de desenvolvimento de carne cultivada já foram recebidos.

“As grandes empresas estão interessadas também e a gente vê uma tendência. Mas, hoje, nenhuma delas está investindo (em projetos de carne cultivada)”, conta Guadagnini.

Hoje, Estados Unidos, Israel e Holanda são líderes na produção tecnológica de carnes, um mercado que pode valer mais de 600 bilhões de dólares em 2040, de acordo com a consultoria AT Kearney.

Apesar de a carne cultivada já estar disponível hoje em outros lugares do mundo, o seu custo é muito alto para vender ao mercado. Isso por conta dos custos de desenvolvimento e da proteção das tecnologias pelos direitos de propriedade intelectual das empresas desenvolvedoras.

Hoje, o custo de uma almôndega de carne cultivada é de, em média, US$ 50. Apesar do preço, o barateamento nos últimos anos foi impressionante. Em 2015, a mesma porção custava cerca de 8 mil dólares. “Ninguém vai comprar uma almondega de 200 reais, mas o importante é que está barateando”, destaca Guadagnini.

Para o CEO do The Good Food Institute, em três anos deve começar a aparecer nas gôndolas dos supermercados as primeiras carnes cultivadas produzidas com as primeiras etapas de reprodução celular. O sistema scaffold deve se popularizar em dez anos. Mas o tempo pode oscilar conforme o êxito das pesquisas.

carnes Foto Frederick Tubiermont (Unsplash)

Tendência em alimentos

Para Guadagnini, a tendência para os próximos anos é que as carnes cultivadas e vegetais dividam espaço nas gôndolas dos supermercados e nos restaurantes. Estudos mundiais acompanhados pelo Instituto apontam que a carne vegetal, aquelas que já são vendidas nas grandes redes varejistas no Brasil, terão mais adeptos pelos próximos dez anos.

Mas a tendência é que isso comece a mudar com o avanço da tecnologia das carnes cultivadas e do processo de formatação de bifes.

”A carne vegetal tem suas limitações porque é difícil fazer de base vegetal produtos inteiros, é difícil fazer uma peça com vegetais. Hoje, pelo menos, não conseguimos replicar com as carnes vegetais a aparência da carne in natura”

Gustavo Guadagnini, CEO e fundador do The Good Food Institute no Brasil

Combate à escassez

O avanço das áreas áridas no mundo por conta do devastamento das florestas tropicais pode, nos próximos anos, acabar com áreas de criação de gado e de vegetações usadas na alimentação. Além disso, a população mundial deve chegar a 10 bilhões em 2050, forçando ainda mais a necessidade por novos alimentos. Nessa conjuntura, a criação de novas fontes de alimentação pode ser um atenuante para a escassez.

Mas Guadagnini avalia que nenhuma solução será suficiente sozinha.

“Precisamos investir em várias frentes, tanto para aumento da produtividade das fontes de proteína que já existem quanto, para criação de novas formas de produzir comida. Precisamos continuar a investir em serviços, tecnologia e agropecuária”

Gustavo Guadagnini, CEO e fundador do The Good Food Institute no Brasil

Os investidores já vislumbraram na carne cultivada a possibilidade de ser uma das fontes para substituição ou complemento das fontes tradicionais de oferta de proteína. “Esse é o momento da corrida para o mercado. Os fundos que estão entrando não investem em ciência early stage, estão locando dinheiro para produtos que vão ao mercado. Eles estão entrando forte com dinheiro e não é só pelo desenvolvimento da ciência. É para ganhar dinheiro”, destaca Guadagnini.


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