Como a Mercedes-Benz incuba projetos dos próprios funcionários para inovar - WHOW
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Como a Mercedes-Benz incuba projetos dos próprios funcionários para inovar

Programa de intraempreendedorismo da companhia alemã nasceu em 2018 e agora está na sua terceira edição dando voz aos colaboradores

POR Adriana Fonseca | 09/07/2020 18h30

O programa de intraempreendedorismo da multinacional Mercedes-Benz, batizado de “Incubadora”, está sendo pivotado neste ano de 2020. Lançado em 2018 e agora já com duas edições realizadas, foi desenhado com encontros presenciais importantes para o desenrolar do programa. Com a pandemia, teve que ser revisto. Afinal, se tem uma coisa que o pessoal do “Incubadora” aprendeu com o ecossistema das startups é que está tudo certo mudar as coisas no meio do caminho. “A gente pode pivotar, então estou me dando esse direito”, brinca Cristiane Bulchi, gerente de governança de TI e planejamento de projetos de TI da companhia e responsável pelo programa, ao falar com o Whow!. “Estamos vendo como atender os mesmos princípios e objetivos, mas com ferramentas que funcionem no ambiente remoto.”

Celeiro de ideias por natureza, consequência da cultura corporativa da empresa, a Mercedes-Benz entendeu, há dois anos, que estruturar um programa de intraempreendedorismo poderia acelerar o surgimento de ideias relevantes para o negócio. Seria um jeito de estimular ainda mais os funcionários a colaborarem com inovações. 

Mudança na agilidade das inovações na Mercedes-Benz 

Tudo começou com a mudança da chefia de TI da empresa no fim de 2017. O novo CIO chegou querendo implementar mais agilidade às inovações.

“A empresa tem inovação na veia, novas ideias sempre surgiram, o que mudou foi a necessidade de ter mais velocidade para atender o negócio.”

Cristiane Bulchi, gerente de governança de TI e planejamento de projetos de TI da Mercedes-Benz

Mercedes-Benz Foto Cristiane Bulchi (divulgação)

Com esse mindset, a empresa decidiu começar a olhar o ecossistema de startups, para entender como essas empresas resolvem problemas e identificam oportunidades. Mas, olhando para fora, a Mercedes-Benz também sabia que dentro de casa tinha excelentes ideias. “De diferente, queríamos trazer o espírito de empreendedorismo, dando força nesse viés.”

Foi assim que nasceu o programa organizado em parceria com a Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha e a Troposlab, aceleradora especializada em programas de inovação corporativa. “Nossa intenção era criar startups de funcionários internamente. Não criar startups com CNPJ, mas no modelo de trabalho. A proposta era pegar as ideias dos funcionários e encapsulá-las, ajudando as pessoas a desenvolver e implementar essa ideia no modelo de startup”, conta Cristiane.

Em um primeiro momento, foi aberta a oportunidade de os funcionários – qualquer um, do chão de fábrica à liderança – mandarem ideias que atendessem a proposta do desafio – ideias alinhadas às metas da empresa naquele ano. As equipes deveriam ter de três a cinco pessoas e a recomendação era que os times fossem compostos por funcionários de áreas diferentes. 

Assim, na primeira edição, em 2018, 101 ideias foram submetidas, envolvendo cerca de 350 funcionários. Na segunda, em 2019, foram 79 ideias e 290 pessoas envolvidas. 

Abertas a votação, as 20 ideias mais votadas passaram pela peneira e seguiram para a pré-aceleração – etapa em que se cria um modelo de startup para o desenvolvimento da ideia, com uso de metodologia ágil, validação da dor, da ideia, mapa de empatia, etc. “Nessa fase, algumas equipes foram a campo entrevistar as pessoas para ver se o que elas identificavam como problema era mesmo um problema. Alguns perceberam que a ideia como foi pensada não mataria o problema, então foi preciso pivotar, que é mudar a ideia para resolver o problema”, explica a executiva.

Esse processo durou um mês, com encontros semanais presenciais de dia inteiro. 

 Intraempreendedorismo com apoio das lideranças

Como o programa não tinha recurso para viagens, cada equipe precisava que seu gestor de área liberasse verba para a reunião em São Paulo – algumas unidades da Mercedes-Benz ficam em outras localidades. “Foi na raça”, conta a executiva. “O programa não nasceu com verba. Tem que nascer e mostrar antes o benefício. Então as áreas é que foram bancando. O apoio das lideranças foi meio natural.”

Ainda na etapa de pré-aceleração, os participantes aprenderam como fazer um pitch. 

Com a ideia mais consolidada, os grupos fizeram suas apresentações para o board, formado por vice-presidentes e pelo presidente da empresa no Brasil. “Fizemos em um modelo de Shark Tank”, diz Cristiane, se referindo ao reality show. A proposta inicial é que o board escolhesse cinco ideias para irem adiante, mas na primeira edição, de 2018, foram oito eleitas, que seguiram para a fase de aceleração, que durou dois meses. “É o momento do piloto, de testar o conceito da ideia, de fazer o MVP e provar o valor da ideia sem gastar muito recurso”, explica Cristiane. “O conceito é testar para depois arrumar o dinheiro para executar.”

Nessa etapa, a turma participante também fez um “tour de inovação”, com visitas a locais como o Inovabra, Cubo e Cietec. “Para se familiarizar mais com o processo, conversar com o pessoal que trabalha no modelo de startup.”

Passada essa fase, no Demo Day os grupos apresentaram os resultados e, ali, todos poderiam passar e dar continuidade ao projeto – não era uma competição. Em 2018, seis passaram e conseguiram verba para o projeto.

A partir dali, mantinham suas ocupações originais e agora também tocavam a nova ideia. 

Implementação dos projetos na empresa

A segunda edição do “Incubadora”, realizada em 2019, seguiu o mesmo processo, mas o tema foi diferente, e se relacionou com a jornada do cliente. Aqui, dez ideias passaram para a aceleração, seis estão apadrinhadas e quatro tentando amadurecer, inclusive com a ajuda de parceiros externos.

Da primeira edição, de 2018, três ideias já foram implementadas e outras duas estão prestes a serem finalizadas. Uma está com dificuldade de ir para frente, mas segue sendo desenvolvida. “Nenhuma está perdida ou abandonada.”

Como lições do “Incubadora”, Cristiane fala do aprendizado de que se pode errar e aprender com esse erro, é algo que faz parte do processo.

“Na escola, a gente é sempre treinado para acertar e é punido quando erra. O sistema ensina a focar no acerto, mas o erro faz você aperfeiçoar a solução.”

Cristiane Bulchi, gerente de governança de TI e planejamento de projetos de TI da Mercedes-Benz

Ela recomenda, inclusive, o filme Pad Man, disponível no Netflix, que mostra bem os processos de erros, aperfeiçoamentos e acertos. “Erro é fase de aprendizado.”

Além disso, ela destaca também o desenvolvimento de habilidades empreendedoras nos funcionários que participaram do programa. “Eles sabem que podem sugerir e fazer. Nem precisam mais da incubadora, sabem que têm voz”, diz – e ainda complementa. “Quem participou com vontade leva essa voz para fora do programa, despertando um espírito de pioneiro.”

Por fim, Cristiane ressalta que o programa só deu tão certo porque a empresa abraçou a ideia e, com isso, ela quer dizer a alta liderança. “Os vice-presidentes deram atenção, ouviram. Mostraram que ouvimos os clientes, mas também ouvimos o funcionário.” 


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