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Como a Coreia do Sul passou a reciclar 95% do alimento desperdiçado

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Foto ilustrativa Jakub Kapusnak (Unsplash)

Cerca de um terço de todo alimento produzido no mundo para consumo humano é desperdiçado, segundo estimativas da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Isso, em números absolutos, significa 1,3 bilhão de toneladas de alimento por ano.

Esse desperdício acontece em várias etapas: na colheita, no processamento do alimento, no armazenamento, transporte e também na rotina das pessoas, quando compram mais do que vão comer e acabam deixando a comida estragar.

Os dados trazem uma preocupação, tanto que a redução do desperdício de comida faz parte dos objetivos de desenvolvimento sustentável da ONU. Com a meta, espera-se zerar ou diminuir a fome no mundo. Atualmente, quase 1 bilhão de pessoas no mundo passam fome, e elas poderiam ser alimentadas com menos de um quarto da comida desperdiçada nos Estados Unidos e na Europa.

Mudança na relação com alimento na Coreia do Sul

Na Coreia do Sul, o processo de mudança já começou. Anos trás, o país reciclava apenas 2% da comida desperdiçada. Hoje, esse índice chega a 95%.

Entre os coreanos, é comum haver diversos acompanhamentos em uma refeição tradicional e, claro, nem todos são consumidos, o que contribui para que o país tenha uma das maiores taxas de desperdício de alimento do mundo.

Cada sul-coreano gera mais de 130 quilos de desperdício de alimentos por ano. No Brasil, dados mostram que o desperdício por habitante é de 41,6 quilos por ano. Aqui, os alimentos que mais vão para o lixo são arroz, carne, grãos e frango. Na Europa e na América do Norte, o desperdício varia entre 95 e 115 quilos de comida por pessoa por ano, segundo a FAO.

Diante dos dados, o governo sul-coreano decidiu tomar medidas. Com o despejo de alimentos em aterros proibidos, em 2013 foi instituída a reciclagem obrigatória de restos de comida, utilizando bolsas biodegradáveis. Uma família média de quatro pessoas paga US$ 6 por mês pelas bolsas. Essa taxa imposta ajuda a incentivar a compostagem doméstica – quando as pessoas reciclam o resto de comida em suas próprias casas.

O valor pago pelas bolsas, por sua vez, cobre os custos do sistema de reciclagem de alimentos. Uma vez que o alimento é decomposto, ele vira fertilizante para ser usado na agricultura e também se transforma em ração animal.

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Foto (divulgação)

Tecnologia e redução do desperdício

A tecnologia é parte importante do sistema de reciclagem de alimentos na Coreia do Sul.

Em Seul, capital do país, 6 mil máquinas automáticas equipadas com balanças e identificação por radiofrequência (RFID) pesam o desperdício de alimentos à medida que as bolsas são depositadas. A identificação do peso de alimento desperdiçado gera uma cobrança para o cidadão, a partir de um cartão de identificação.

A introdução dessas máquinas reduziu o desperdício de alimentos na cidade em 47 mil toneladas em seis anos, segundo o governo local.

As barreiras para reduzir o desperdício de alimentos são muitas, mas, segundo análise do Fórum Econômico Mundial, as tecnologias da Quarta Revolução Industrial estão facilitando a superação desses obstáculos. As inovadoras tecnologias reduzem o custo de escala, aceleram a inovação, aumentam a transparência nos sistemas alimentares, permitem que os consumidores façam escolhas mais bem informados e que os formuladores de políticas se envolvam na elaboração de ações baseadas em evidências.

Ainda assim, mesmo com grande potencial, o setor de alimentos tem se beneficiado pouco das inovações e dos investimentos.

Valor das inovações no setor alimentício

Segundo relatório do Fórum, as inovações tecnológicas do setor alimentício atraíram mais de US$ 14 bilhões em investimentos em mil startups desde 2010, principalmente nos países desenvolvidos. Para efeito de comparação, a área de cuidados da saúde atraiu US$ 145 bilhões em investimentos em 18 mil startups durante o mesmo período de tempo.

Em paralelo ao combate no desperdício de alimentos, o governo sul-coreano também impulsionou o surgimento de fazendas verticais urbanas. O número de fazendas urbanas ou hortas comunitárias em Seul aumentou seis vezes nos últimos sete anos. Hoje, esses negócios totalizam 170 hectares – aproximadamente o tamanho de 240 campos de futebol. A maioria está instalada entre blocos de apartamentos ou em cima de escolas e prédios municipais.

O governo da cidade arca com algo entre 80% e 100% dos custos iniciais do negócio. E, agora, as autoridades da cidade estão planejando instalar composteiras de resíduos alimentares para apoiar as fazendas urbanas.

E no Brasil?

Por aqui há alguns exemplos de fazendas urbanas verticais. Uma delas é a Pink Farms, cuja história já foi contada aqui no Whow!. Fundada em 2016, a startup produz verduras em locais urbanos sem uso que são renovados para produção de modo que as plantas se desloquem menos de 15km para chegar ao prato do consumidor.


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