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Cientistas combinam IA com biologia e criam os primeiros robôs vivos

Cientistas criaram robôs orgânicos e programáveis, baseados em células de sapos. Quais as implicações para a medicina e as questões éticas envolvidas?

POR Carolina Cozer | 30/01/2020 09h00 Cientistas combinam IA com biologia e criam os primeiros robôs vivos (Foto: Shutterstock)

Robôs vivos não são um sonho futurista; são realidade já em 2020. 

No início do mês de janeiro, cientistas e roboticistas das Universidades de Vermont, Tufts e Harvard divulgaram a criação de micro-robôs baseados em organismos vivos. 

Nomeados de “xenobots”, as máquinas são feitas de pele e células-tronco de sapos da espécie Xenopus laevis (daí vem o nome). Foram programadas por algoritmo e são capazes de se locomover, trabalhar em grupo e se auto-regenerar.

Por dentro do oceano e do corpo humano

Segundo a CNN, os xenobots têm menos de um milímetro de largura — pequenos o suficiente para viajar dentro de corpos humanos. Assim, se espera que sejam capazes de navegar pela corrente sanguínea, administrando medicamentos de modo inteligente. 

Os pesquisadores supõem, além disso, que os bio-bots se tornem capazes de limpar microplásticos do oceano, gerenciar derramamentos de resíduos radioativos e desentupir artérias.

“Estas são novas máquinas vivas. Não são um robô tradicional, nem uma espécie conhecida de animal. É uma nova classe de artefato: um organismo vivo e programável.”

Joshua Bongard, especialista em robótica da Universidade de Vermont em comunicado oficial

Como se cruzam com a robótica?

Os xenobots foram criados em um supercomputador, utilizando como base um algoritmo evolutivo que mimetiza a seleção natural. Com os resultados em mão, as soluções mais promissoras foram selecionadas e mutacionadas. No sprint seguinte, as mais refinadas foram reproduzidas e executadas centenas de vezes, construindo projéteis ideais a partir de células vivas.

Através desta junção de algoritmos e programação de máquina, as pequenas células são consideradas robôs vivos, com estrutura orgânica, mas programação digital.

Sociedade 5.0

Se os xenobots foram criados como auxiliares médicos, eles estariam tirando o lugar de trabalhadores no futuro?

Para Gil Giardeli, professor de inovação e roboticista, é preciso rever esse tabu sobre robôs serem “ladrões de trabalho”:

“[robôs] não vieram para trazer um desemprego em massa. Muito pelo contrário; novos empregos e novas formas de trabalho estão sendo geradas, e eles estão ajudando muito a sociedade nesse conceito de termos mais tempo para os trabalhos de economia criativa, ou aqueles que colocam a mente à frente de músculos.”

Gil Giardeli, professor de inovação e roboticista

Robôs (Foto: Shutterstock)

Ele cita que a humanidade enfrenta vários dilemas, como desigualdade social e problemas socioambientais. Os robôs, para Gil, serão grandes aliados na trasnformação positiva da humanidade, em um fenômeno que está sendo chamado de Sociedade 5.0:

“Acredito que o futuro da robótica nos leve a resolver esses problemas complexos, trazendo um mundo mais igualitário onde teremos uma nova forma chamada Sociedade 5.0. Cidades inteligentes estão sendo criadas do zero, para que nelas possamos viver melhor.” 

Ele complementa: “Como um tecno-otimista, a Sociedade 5.0 representa um futuro muito melhor.”

Questões éticas

Imprescindivelmente, os xenobots representam uma inovação para a medicina. Contudo, os próprios pesquisadores admitem que experimentações células vivas criam espaço para consequências imprevistas.

A pesquisa levanta questões legais no que envolve a configuração de seres vivos com propósitos pré-determinados.

Por exemplo, há a (ainda) eterna dúvida acerca de robôs ou células receberem legislações específicas para experimentações. Caso surjam versões aprimoradas, com células sensoriais e acompanhadas de sistema nervoso, elas deveriam ser tratadas como seres vivos?

A versão atual dos microrobôs não apresenta nenhuma dessas funções, a princípio. Por outro lado, os pesquisadores envolvidos já se adiantaram com essa questão: “Você olha para as células com as quais construímos nossos xenobots e, genomicamente, são sapos. É 100% DNA de sapo — mas não são sapos. Então você pergunta: o que mais essas células são capazes de construir?”, questiona Michael Levin, chefe do Departamento de Biologia da Universidade de Tufts, em comunicado oficial.  

“Acho que é há a necessidade de a sociedade avançar para lidar com sistemas em que o resultado é muito complexo. Um primeiro passo para fazer isso é explorar: como os sistemas vivos decidem qual deve ser um comportamento geral e como manipulamos as peças para obter os comportamentos que queremos?”

Michael Levin, chefe do Departamento de Biologia da Universidade de Tufts

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CONHEÇA O QUE PENSAM OS ROBÔS NESTE VÍDEO DO WHOW!


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