Bee Touch foca em prevenção e dados para mitigar riscos psicológicos em empresas - WHOW

Eficiência

Bee Touch foca em prevenção e dados para mitigar riscos psicológicos em empresas

Entre 2011 e 2030, a perda econômica relacionada a transtornos mentais é projetada em mais de US$ 16 trilhões em todo o mundo.

POR Marcelo Almeida | 16/12/2021 09h12

A psicóloga Ana Carolina Peuker tem uma formação invejável: além de ter feito mestrado e doutorado, ela tem dois pós-doutorados, todos na área de psicologia e a maioria na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul).

Apesar disso, ela não estava contente em trabalhar o conhecimento apenas dentro da academia, como pesquisadora e professora, resolvendo aplicar seus conhecimentos na vida real, empreendendo na área da saúde mental de forma pioneira.

Junto com a também psicóloga Sibele Faller e o cientista da computação Felipe Scuciatto, eles criaram a Bee Touch em 2012, uma “digital health startup que desenvolve soluções para saúde e qualidade de vida em diferentes contextos”.

No entanto, há três anos eles se posicionaram de forma mais direcionada para o rastreio do risco psicológico após receberem um aporte da Vetor Editora, que, segundo Peuker, antecipou um movimento no sentido de tornar a avaliação psicológica menos analógica como ela é atualmente, apostando na Bee Touch para desenvolver uma plataforma digital mais completa.

“A gente começou a ver que nessa área de gestão de saúde tem muito especialista em saúde física, que gere sinistralidade a partir do ponto de vista da saúde física, não mental. Eu venho da área acadêmica, minha sócia também e a gente se deu conta de que não tinha ninguém fazendo isso em saúde mental com expertise técnica. As soluções em saúde mental tendem a ser muito reativas, e a gente trabalha com uma ideia voltada para a predição de risco”, diz Peuker.

Mesmo antes do aporte, no entanto, eles já trabalhavam com saúde mental, mas o mercado não era muito aberto a essas questões, tendo ocorrido uma mudança de mentalidade  recentemente. Além disso, a empresa sempre trabalhou com a questão do risco associado a doenças crônicas não transmissíveis, como tabagismo, hipertensão e obesidade, que geram um custo elevado para as empresas.

Plataforma pioneira

“Na gêneses desses problemas de saúde está o comportamento humano. Então a gente atuava também no sentido de favorecer a mudança de comportamento”, diz a CEO da Bee Touch. “Por seis anos fizemos um projeto grande na Braskem e percebemos que existia uma demanda para um tipo de avaliação específica que se chama avaliação de risco psicossocial, e percebemos que existia uma oportunidade aí. Então desenvolvemos a nossa plataforma de avaliação psicológica, que é a primeira no país e se chama Avax.”

A plataforma cruza dados sobre saúde mental e analisa os resultados a partir de uma metodologia proprietária, além de disponibilizar protocolos digitais de entrevista psicológica e permitir que o psicólogo realize atendimento remoto por meio da sala virtual, use prontuário eletrônico e agenda.

No caso das empresas, podem ser aplicados monitoramentos digitais com colaboradores de forma anônima para extrair relatórios mais completos e assertivos sobre saúde mental dos colaboradores de forma geral. Segundo Peuker, muitas vezes os próprios psicólogos não têm o hábito de utilizar dados e medidas em suas práticas, tornando a atividade menos rigorosa de um ponto de vista científico.

“Para qualificar um diagnóstico, você precisa ter protocolos, guidelines baseados em evidências assim como a Medicina tem, e a Avax traz dentro dela protocolos de avaliação com textos específicos, para neuropsicologia, para detecção do risco psicossocial, que é o que mais interessa às empresas e uma série de outras aplicações clínicas. Ela também exibe alertas, então o psicólogo conduz aquela entrevista com aquele protocolo definido e a plataforma tem algoritmos inteligentes que geram alertas relativos ao risco, seja de suicídio, heteroagressão, problemas com rede de apoio social”, diz a CEO.

Segundo Ana, a ferramenta padroniza processos e auxilia não apenas os profissionais mais novos na carreira, mas também os mais experientes, proporcionando uma plataforma confiável baseada em critérios diagnósticos e em boas práticas do setor.

Buscando a causa raiz

Para Ana, o mais importante é realizar uma abordagem mais preventiva e não apenas pontual e apagando incêndios, como ela acha que é o principal modelo na maioria das empresas.

“Existem empresas que não oferecem nada em termos de saúde mental aí decide de repente oferecer psicoterapia, mas nem sempre a demanda é essa, então a gente trabalha detectando a causa raiz do risco psicológico, que pode ser a presença de abuso moral, falta de equidade de gênero, problemas com equipamentos, enfim, outros fatores que podem ensejar maior estresse do trabalhador como carga horária excessiva, excesso de horas extras. Então hoje o que ocorre é que as empresas fazem um mapeamento de sintomatologia psiquiátrica apenas. Então a gente apoia as empresas desde o monitoramento sistemático até o delineamento de ações, trazendo nossa expertise da área de dependência química que trabalha com uma técnica chamada de gerenciamento de contingência, que é pra ajudar na adesão”, afirma Peuker.

Em relação à saúde mental, ela afirma que é um assunto ainda mais difícil de ser tratado pelas empresas. “As empresas que fazem alguma coisa estão oferecendo cuidados paliativos, como psicoterapia. Pode ser bom, mas não é uma solução fit for all, não deveria ser”, afirma Peuker.

Para dar um exemplo, ela conta o caso em que atuaram em uma estação petroquímica na qual existia muita sonolência entre os empregados, o que pode significar um risco de acidentes muito grande.

Acabaram descobrindo que havia abuso de benzodiazepínicos entre os trabalhadores, que muitas vezes trabalhavam em horários noturnos e tinham que forçar o sono durante o dia, quando o corpo não está muito adaptado para descansar. Além disso, muitos acabavam abusando do álcool.

“Foi feito todo um trabalho psicoeducativo em relação aos efeitos da medicação, os tipos de risco que eles corriam, e também em relação ao uso de drogas”, diz a CEO da Bee Touch.

Coletando dados e respeitando a privacidade individual

Para mapear os riscos nas empresas, a Bee Touch geralmente coleta dados de forma totalmente anônima.

O objetivo é tornar os gestores cientes de quais são as demandas mais prevalentes sem precisar saber de forma individualizada quem é o colaborador que sofre com determinado tipo de transtorno ou doença específica.

“Na medida em que a empresa tem práticas mais maduras e oferece algo mais consolidado de atendimento, aí é possível identificá-los, nunca sendo um levantamento compulsório, sendo sempre voluntário, mas a gente tem um braço de comunicação muito forte para fazer as pessoas entenderem a importância daquilo, porque os próprios benefícios vão ter uma customização mais adequada a partir da compreensão da necessidade deles”, avalia Peuker.

Apesar de todos os esforços da companhia, ela diz que infelizmente ainda existe uma grande resistência por parte dos profissionais em aceitar ajuda e a reconhecer seus problemas porque existe um estigma muito grande ainda relacionado a questões de saúde mental.

“As pessoas são analfabetas do ponto de vista emocional. A gente aprende uma série de matérias no colégio mas não aprende sobre transtorno bipolar, alcoolismo ou outras doenças que são muito prevalentes. Então ainda existe muito preconceito. Foi só com a invenção dos fármacos que a gente superou a ideia de que era preciso isolar quem tinha uma doença mental. A gente tenta quebrar esse estigma para favorecer a busca de ajuda precoce, porque muitas vezes é tanto preconceito que a pessoa passa anos à deriva sem tratamento adequado”, diz a CEO.

Segundo ela, houve um avanço recente importante que são as normas regulamentadoras do Ministério do Trabalho que exigem, para determinadas atividades, uma avaliação de risco psicossocial, especialmente aqueles trabalhadores que vão atuar em ambientes periculosos.

E essas normas regulamentadoras evoluíram para uma gestão de risco, ou seja, que agora as empresas não precisam apenas informar que existe um risco, mas também o que estão fazendo para gerir o risco ou mitigá-lo.

Além disso, ela diz que foi lançada a ISO 45.003 totalmente orientada para fatores psicossociais por causa dos problemas que surgiram no contexto da pandemia, de aumento significativo de afastamentos, absenteísmo, etc.

Peuker espera que com essa ISO, as empresas se torem mais conscientes em relação a questões de saúde psicológica no trabalho, até porque esse tema teria uma estreita ligação com uma agenda ESG, (Meio Ambiente, Social e Governança Corporativa, na sigla em inglês) algo cada vez mais difundido e tido como necessário pelos consumidores que as empresas respeitem.

“A saúde mental está alinhada com uma noção de sustentabilidade humana. Do que adianta a empresa ser verde se naquele contexto há um ambiente de trabalho adoecedor?”, reflete ela.

Para corroborar ressaltar essa necessidade, ela aponta alguns números importantes sobre o custo humano de não dar atenção à saúde psicológica das pessoas e dos trabalhadores: 800 mil pessoas cometem suicídio todos os anos; entre 2011 e 2030, a perda econômica relacionada a transtornos mentais é projetada em mais de US$ 16 trilhões em todo o mundo; apenas os custos secundários de uma doença mental, como absenteísmo, presenteísmo, turnover e afastamentos, podem representar US$ 2 mil por empregado; e os custos diretos e indiretos relacionados a essa questão podem chegar a 5% do PIB do país.

“Hoje, gerir os custos de saúde mental acaba constituindo um diferencial estratégico e um diferencial competitivo”, conclui Peuker.