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Artigo: A urgência de uma política nacional de reindustrialização

Mesmo com todas as dificuldades que temos, fomos considerados em recente ranking do IMD, como o 25º país mais atraente para investimentos externos

POR Redação Whow! | 01/07/2020 15h32

*Por Felipe Mendes

Neste momento, estamos todos ainda olhando o lado obscuro da pandemia, porém alguns sinais interessantes de progresso acelerado já podem ser notados, no Brasil e no mundo. A tecnologia, sempre disruptiva, tem gerado ganhos de produtividade em muitos setores e certamente irá redesenhar muitas cadeias de serviços e industriais, acelerando a recuperação econômica.

Uma das grandes oportunidades a se aproveitar é a reorganização das cadeiras de produção globais. É um consenso que elas deverão se tornar mais resilientes, talvez até em prejuízo da eficiência, e mais sustentáveis. Em um primeiro momento, podemos acreditar que a menor eficiência irá gerar mais custos e, portanto inflação de preços, porém esse pensamento não é de todo verdade, em função dos avanços tecnológicos que mais uma vez aparecerão.

Ao mesmo tempo, a coexistência da pandemia com a “batalha comercial” China-EUA e o protecionismo crescente em diversos países do mundo, tem levado os pensadores de Políticas Industriais a considerar a necessidade de reconstruir capacidade de produção em indústrias estratégicas, sendo a definição de “estratégica” bastante específica de mercado a mercado

Reflexão sobre a reindustrialização do Brasil

Para o Brasil, essa é uma oportunidade única de repensar a sua opção pela desindustrialização. Apenas como referência, o percentual da indústria no PIB brasileiro está próximo a 10%, mesmo percentual de 80 anos atrás, ainda que esse percentual tenha atingido algo próximo a 25% em nosso melhor momento do século 20. Alguns podem argumentar que nos Estados Unidos o percentual é de 11%, mas convenhamos, o PIB americano e a produtividade por trabalhador não nos permitem considerar essa comparação como válida. Outros dirão que apenas a China produz tudo no mundo e que a única maneira é ser muito barato. Sim, o argumento tem alguma validade, porém Alemanha e Áustria tem 18% do seu PIB na Indústria.

Mas será este o momento de se discutir industrialização, quando tivemos a maior paralisação da história em abril e um maio, que ainda reduz mais de 20% comparado a 2019? Para tornar a reflexão ainda mais difícil sabemos que a retomada apenas gradual do consumo, a nível global, levará a máquinas paradas por um bom tempo, situação que desespera qualquer empresário e gera desconfiança “keynesiana” por muitos anos, reduzindo a disposição de futuros investimentos.

Mas também é fato que a capacidade ociosa no Brasil, mesmo antes da pandemia, já era alta. O nível de utilização da capacidade instalada (Nuci) da indústria de transformação é de aproximadamente 80% há algum tempo. Desde a crise de 2014, não recuperamos totalmente os níveis de consumo em alguns setores e, guardadas honrosas exceções, não conseguimos ter competitividade global e produtividade para exportarmos mais. Ficamos, portanto, presos na armadilha da indústria “pato”, que nem nada, nem anda, nem voa bem. Por um lado, o custo do trabalhador médio no Brasil é alto quando comparados a outros centros produtivos de mão de obra intensiva, como Sudeste Asiático ou até a América Central. Ao mesmo tempo, o payback de se investir em tecnologia é muito longo, não apenas pelo custo para se importar máquinas e equipamentos (taxas, logística ineficiente, moeda flutuante), mas também pelo histórico de crédito caro no Brasil, o que fez com o nível de automação de fábricas no país seja baixíssimo.

Outro elemento importante são as “externalidades positivas”, que no Brasil são bastante limitadas, como a formação de profissionais de nível técnico, legislação e tributos que favoreçam a ampliação de capacidades produtivas, a integração de universidades que apoiem a pesquisa e o desenvolvimento, além de liquidez no mercado para investimento a custos convidativos.

Qualidade de competitividade energética

indústria Foto ilustrativa Anna Jimenez (Unsplash)

Porém, há pelo menos quatro características interessantes neste momento e que precisam ser aproveitadas: potencial energético, proximidade geográfica e cultural a importantes mercados consumidores, baixa rentabilidade dos ativos financeiros globalmente, além do consenso (provável) da sociedade sobre a necessidade de desenvolvimento estrutural.

O potencial e a qualidade da nossa matriz energética, ouso dizer, estão entre as três maiores do mundo. Nossa extração atual de petróleo (ok, falta o refino) é respeitável e, passado o investimento inicial (alto), temos custos globalmente competitivos de produção. E é igualmente conhecido o nosso potencial hídrico, já explorado, mas ainda com oportunidades, na diagonal chuvosa que vem da Amazônia até o Estado de São Paulo. No centro do país, temos a abundância da biomassa, em função da nossa agricultura de tamanho mundial. No litoral, somos brindados com ventos constantes e, ainda melhor, de ótima qualidade (com pouca variação de direção). Finalmente, a nossa insolação é brutal e os custos da energia solar vão se tornando cada vez mais competitivos.

Além do potencial acima, que “Deus” nos deu, a partir de 2023 consumidores com demanda superior a 500 kW poderão escolher seu fornecedor, o que aumentará ainda mais a competição já existente mercado livre (hoje eminentemente corporativo). Há ainda o provável movimento para privatização no setor elétrico e, não menos importante, o empurrão do sistema financeiro, que começa a atuar em diversos formatos com esse ativo, incluindo não apenas bancos, mas também o Balcão Brasileiro de Comercialização de Energia (BBCE).

A razoável proximidade com grandes mercados consumidores não deve ser menosprezada. Um dos grandes impactos que a crise da oferta causou foi um aumento expressivo em fretes marítimos e aéreos, algo que deixará marcas no resultado das empresas e será lembrado por alguns anos em reuniões de Board. Em abril, a Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica registrou aumentos entre 49% e 200% no frete aéreo, em especial da China ao Brasil. Há que se destacar que o desenvolvimento de polos fabris no Nordeste, poderia nos colocar ainda mais perto da Europa e dos Estados Unidos, além de reduzir a concentração no Sul e Sudeste, gerando melhores empregos em uma das regiões mais necessitadas.

Especificamente nos Estados Unidos, é público o debate sobre onde produzir aquilo que não querem mais que a China produza, mas que também não tem condição de produzir por custos. México e países da América Central são grandes concorrentes por essa oportunidade, pela proximidade física e legislação (em alguns casos), mas ainda temos algumas vantagens comparativas e o alinhamento político, comercial e diplomático é favorável para nós no momento. A base de comparação também é bem favorável: enquanto 31% da nossa exportação de janeiro a abril de 2020 foi para China, apenas 10.4% se destinou aos Estados Unidos.

Novos investimentos

O terceiro elemento é o grande desafio da elite econômica para remunerar seu capital acumulado hoje. Por muitos anos, investimentos em dívida do governo traziam boa rentabilidade, a baixíssimo risco. Essa “benesse” gerou um comportamento “preguiçoso”, onde era mais interessante investir o lucro gerado na empresa no mercado financeiro, ao invés de reinvestir em seu próprio negócio (expansão de fábrica, investimentos em tecnologia, desenvolvimento de novos mercados, etc.). Assim, ficou conhecida a frase “empresário rico, empresa pobre”.

Hoje em dia, esse mesmo empresário encontra menos opções, no Brasil ou globalmente, em função dos baixos juros e da desconfiança gerada pelas agressivas flutuações dos mercados financeiros mundiais nos últimos anos. O brasileiro é tão desconfiado, que tradicionalmente prefere investir no Brasil e em empresas grandes ou conhecidas, ainda que os investimentos em startups tenham crescido 88% entre janeiro a maio de 2020, comparado ao mesmo período de 2017, porém atingindo apenas US$516 milhões. De qualquer forma, nota-se boa parte do empresariado nacional passando a confiar mais no seu “instinto animal”, reaplicando o seu lucro na empresa e buscando ganhos operacionais, mais do que investindo em ativos financeiros.

Essa situação também é verdadeira para investidores estrangeiros, que já começam a retornar seu investimento ao Brasil, pois apesar dos baixos juros para nossos patamares históricos, ainda remuneramos melhor que muitos mercados (desde que o prêmio pelo risco Brasil não suba muito). Levantamento do IMD demonstrou que em 2019 fomos o quarto país que mais recebeu investimentos estrangeiros em valor absoluto e o nono, em percentual do PIB.

Finalmente, está a questão do possível consenso a que chegaremos como sociedade, após vivenciarmos uma queda do PIB 12.9% em abril (vs 2019), a maior em nossa história. As duas outras grandes quedas mensais foram em abril de 1981, acelerando a discussão sobre o processo de redemocratização, e em abril de 1990 (12.5%), primeiro mês do Governo Collor, que que sentou bases para uma redução estrutural e sustentável da inflação, nosso maior inimigo econômico à época.

“Quero crer que a destruição rápida do mercado de trabalho, concentrada em empregos de pior qualidade ou informais, contribuirá para um amplo debate a possível acordo na sociedade civil sobre a necessidade da reforma tributária, simplificando a vida do empresário, bem com a reforma administrativa, reduzindo o tamanho do Estado e devolvendo a capacidade de investimento em infraestrutura, como nos prova o recente acordo para investimento em saneamento básico.”

Há outros elementos que são igualmente positivos, como a ausência de significativos conflitos internos e em fronteiras, um mesmo idioma e crenças em todo o território e, por que não dizer, um razoável soft power no imaginário global (pesem os últimos 6-7 anos de desconstrução). Ainda somos abençoados com menores impacto de efeitos climáticos ou da natureza, como terremotos, o que conta pontos importantes para a resiliência da cadeia produtiva, como Kyoto nos demonstrou.

Finalmente, está o tamanho do nosso mercado consumidor: 72 milhões de lares chamam a atenção de qualquer empresa global. Mesmo com todas as dificuldades que temos, fomos considerados em recente ranking do IMD, como o 25º país mais atraente para investimentos externos. Vale lembrar que em 2014 fomos considerados o 5º mais atraente.

Em resumo, pese o clima político, a tensão social e as perdas de vidas no momento, tenho absoluta convicção que devemos e iremos repensar nossa Política Industrial Nacional. É fato que ser o “celeiro do mundo” e ter uma base forte de exportação de commodities é algo importante para nosso desenvolvimento econômico. Igualmente sabemos que os serviços de alto valor agregado são o sonho de qualquer economia. Mas temos que ser realistas e concentrar esforços para uma significativa melhora da nossa condição industrial, algo que podemos e precisamos fazer com urgência.


*Felipe Mendes,
general manager LatAm na GfK – Growth from Knowledge, consultoria alemã de inteligência de mercado. 


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