A Startup Enxuta: guia para deslanchar startups segue como um clássico - WHOW

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A Startup Enxuta: guia para deslanchar startups segue como um clássico

Publicado há 10 anos, título do livro virou sinônimo de um modelo de startup, mas também um “movimento” levado adiante pelo próprio autor Eric Ries.

POR Marcelo Almeida | 07/11/2021 20h17

O livro “A Startup Enxuta” (The Lean Startup), de Eric Ries, escrito em 2011, aparece frequentemente nas listas de CEOs e empresários em geral como uma das principais obras que eles indicariam aos que buscam sucesso na área dos negócios. Tanto que o título do livro virou um modelo de startup, mas também um “movimento” levado adiante pelo próprio autor com centenas de encontros e palestras ao redor do mundo (ele já esteve em 94 cidades de 17 países).

No site do “movimento”, com o próprio nome do livro basilar em inglês, você vai encontrar uma série de formas de se envolver, seja comprando o livro principal ao redor do qual giram todas as outras ações, seja adquirindo para sua empresa cursos específicos com a aplicação dos preceitos do livro, com a recomendação de mentores interessantes como um ex-membro do Departamento de Defesa dos EUA, o CEO da companhia LegalZoom e um gerente de alto escalação da Ikea.

Também são indicados (e vendidos) uma série de livros que orbitam o livro principal: Lean Impact (Ann Mei Chang), Lean Startup Co, The Lean Series (uma série de livros sobre assuntos que vão de UX a Analytics, sempre com o título The Lean UX, The Lean Analytics, e assim por diante), dentre outros.

Logo de cara, torna-se visível que Eric Ries escreveu algo que caiu nas graças do público e que, ao se deparar com essa galinha de ovos de ouro, tem se dedicado a difundir, multiplicar e maximizar os lucros que pode obter com uma metodologia de negócios.

Mas afinal, por que, após uma década, essa obra continua a ser tão reverenciada e citada?

A Startup Enxuta

Logo de inicio, o autor conta sobre um empreendimento mal sucedido que tinha a ideia de ligar o perfil de estudantes universitários ao de empregadores e executivos em geral. A ideia foi apresentada logo após o estouro da bolha da internet, em 2001.

Apesar da ideia bastante promissora – basta olhar para empresas como o Linkedin – ele descreve de forma um tanto dramática como ele se separou de seu parceiro de negócios em um dia chuvoso, com cada um seguindo um caminho oposto, após o fracasso do empreendimento.

Mas a parte importante é sua percepção de que, na teoria, eles haviam feito tudo da forma certa: eles tinham um ótimo produto, uma grande equipe, boa tecnologia e um bom timing para implementar a ideia. Esta última constatação talvez seja a mais controversa: o Facebook só seria criado três anos depois e os investidores não estavam exatamente sedentos por aplicações arriscadas em empresas que, pela breve descrição que ele faz no livro, tinham alguns conceitos prototípicos de redes sociais.

De qualquer forma, ele descreve esse fracasso como um momento fundamental, usando metáforas como “se o mundo estivesse caindo abaixo de seus pés” e a percepção de que todas as ideias vendidas pelas mídias convencionais são falsas e que determinação, inteligência, um bom timing e um bom produto não são garantia de fama e fortuna.

Após conseguir pensar com mais calma, ele chegou à conclusão realista de que a maioria das startups falham, que a maioria dos novos produtos lançados no mercado não são bem sucedidos e que a maioria dos novos empreendimentos acabam não alcançando o potencial que esperavam.

Ele começou a rejeitar. também, o mito do empreendedor solitário com uma grande ideia e com uma mente brilhantes criando algo do zero.

Após o fracasso de 2001 e com importantes aprendizados e mudanças na forma como ele vê o mundo dos negócios, ele se juntou a Will Harvey e fundou outra startup em 2004, a IMVU. A ideia era basicamente construir um mundo virtual no qual as pessoas pudessem se comunicar por meio de avatares, algo que o Second Life teve a primazia, sendo lançado em 2003 e basicamente tornando real o conceito de metaverso, muito falado atualmente em função de o Facebook ter anunciado que irá atuar nessa área.

Dessa vez, no entanto, ele decidiu não seguir todas as regras do jogo. Em vez de desenvolver ao máximo a tecnologia, ele e seu time criam um produto minimamente viável (ou MVP, minimum valuable product, na sigla em inglês) cheio de erros e defeitos.

Depois, arrumaram alguns consumidores, que pagavam para ter acesso a essas versões iniciais cheias de bugs e ajudavam com feedbacks, sem, no entanto, levar esses feedbacks como algo fundamental, mas apenas como uma fonte de informação sobre o produto. Ries estava muito mais interessado em fazer testes com consumidores do que necessariamente atender suas demandas. O empreendedor também adotou um modelo de experimentos de ciclos acelerados baseado no método científico.

Essa mudança rendeu frutos rapidamente. A IMVU acabou criando 60 milhões de avatares e teve um faturamento de US$ 50 milhões à época (em 2011). A empresa ainda está em funcionamento e tem Daren Tsui como seu CEO.

No entanto, mesmo com o sucesso alcançado, Eric Ries acabou sendo substituído como CEO e tornou-se funcionário da empresa de venture capital Kleiner Perkins, passando a atuar como consultor para startups de forma independente após 6 meses.

Lições aprendidas

Diante desse sucesso e dos aprendizados que Ries teve, ele decidiu esquematizar aquilo que aprendeu e publicar um livro no mesmo ano do lançamento do game.

Logo após fazer um histórico como o que acabamos de fazer sobre o que o levou a escrever o livro, ele passa a listar os pilares fundamentais para a teoria da Startup Enxuta:

  • Empreendedores estão por toda parte – Basta trabalhar em uma startup, de qualquer tipo ou porte
  • Empreender é administrar – Uma startup é uma instituição, não um produto
  • Aprendizado validado – Experimentos para aprender a desenvolver um negócio sustentável
  • Crie-Avalie-Aprenda – Construir produto, medir reação dos clientes, perseverar ou pivotar
  • Contabilidade para Inovação –  Medir o progresso, definir marcos e priorizar o trabalho

Embora tenha criado um método, ele é rápido em notar que há uma enorme dificuldade de prever se uma startup terá sucesso porque aspectos como um bom plano de negócios, uma estratégia sólida e uma boa pesquisa de mercado podiam garantir, em outras áreas, em que medida determinada empresa teria sucesso.

No caso das startups, no entanto, isso não ocorre porque elas operam em um ambiente de muita incerteza e cercado por um número enorme de variáveis.

Para Ries, na medida em que o mundo se torna mais e mais complexo, fica cada vez mais difícil prever o futuro, seja em que área for.

Outro insight interessante do autor é que, diante de todas essas incertezas, um caminho poderia ser adotar o lema “Just Do It”, popularizado pela Nike. Isso porque, considerando que a administração se torna um problema na medida em que as startups ficam cada vez mais dinâmicas e imprevisíveis, talvez abraçar o caos de uma vez possa ser uma boa ideia.

Mas ele rejeita essa ideia e afirma que toda a motivação por trás do livro é basicamente de criar um método para tentar tornar o que é uma tarefa extremamente complexa e difícil, ou seja, administrar algo tão disruptivo e imprevisível como uma startup de forma racional e seguindo conceitos e técnicas de aplicação universais neste contexto.

Conceitos fundamentais

Seu trabalho, portanto, tem o objetivo provar que, para alcançar o sucesso em empreendimentos como o IMVU, é preciso seguir três pontos principais:

  • Visão
  • Direção
  • Aceleração

Embora possam parecer conceitos simples, ele os desdobra em vários outros e cria um verdadeiro passo-a-passo para quem está empreendendo e acaba se deparando com uma das situações problemáticas apontadas pelo livro.

No primeiro tópico (Visão), o autor sugere ampla análise daquilo que está funcionando ou não no negócio e se a visão inicial que o fundador da startup teve está em linha com as demandas do mercado.

Sempre sob a sua firme crença de que não adianta pesquisar o que os clientes dizem querer, mas que é fundamental descobrir o que eles realmente querem e vão querer, prevendo tendências.

Já em relação à direção, o autor aborda o aspecto fundamental de construir-medir-aprender, que se fundamenta na construção de um MVP (Minimum Viable Product), aquele conceito que se assemelha ao de um protótipo que já foi discutido. O importante, nesse caso, é seguir analisando a sua performance e as reações que o produto provoca em um grupo de usuários que se dispõem a auxiliar nesse processo oferecendo feedbacks que, embora sejam levados em conta, como já sabemos, não vão ser totalmente seguidos.

Por fim, Ries foca na aceleração, que significa multiplicar as vendas do produto ou do serviço por meio de uma série de técnicas, sobretudo na área de marketing e publicidade, mas nunca negligenciando os aspectos mais básicos ligados ao produto, como problemas técnicos, de design, etc, , que podem ser fatais por questão de reputação.

Para Ries, é importante entregar lotes pequenos que permitam identificar problemas rapidamente, reduzir o desperdício e aumentar a variedade de modelos, cores, etc. Ele também enfatiza que o crescimento da empresa pode ocorrer de forma mais orgânica, como por meio do boca a boca e da utilização do produto (alguém vê outra pessoa usando e fica intrigada e busca conhecer o produto). Outra alternativa é a publicidade financiada, que extremamente efetivas quando os fundadores são capazes de criar uma identidade visual, alguns slogans e outros aspectos audiovisuais que criam uma familiaridade instantânea entre o potencial consumidor e a marca.

Ele também foca no processo de inovação, destacando que, na medida em que a empresa aumenta de porte, torna-se mais difícil inovar, sugerindo que sejam criadas novas startups dentro dessas próprias empresas que já foram uma só companhia no passado.

Ao mesmo, tempo acaba existindo um certo dilema, porque toda startup começa com poucos recursos, uma ou poucas pessoas com uma ideia que lhes é bastante cara e um objetivo primordial de “ganhar na vida”, ou seja, acumular fama e fortuna por meio de uma ideia brilhante, trabalho eficiente e criatividade em geral.

Na medida em que a empresa alcança um grande porte, esses aspectos não mais existem, fazendo mais sentido que a empresa, de repente, seja uma incubadora de novas startups em setores análogos àquele em que atua, agregando valor de forma indireta para a empresa principal, ou alguma solução do tipo.

No entanto, dado o caráter relativamente recente das startups, esse é um tema que ainda precisa ser explorado com mais profundidade.

Além disso, ele também aborda o eterno dilema de continuar inovando para se manter relevante na área de negócios em que se atua, algo que, quando ignorado, acaba afundando diversas empresas.

Mesmo com 10 anos de estrada, o livro continua extremamente atual (até porque é revisado e atualizado constantemente) e deve continuar como livro de cabeceira de muitos CEOs por um bom tempo em função de suas soluções simples e adequadas.