A possibilidade de transformação da população sem-teto através do empreendedorismo - WHOW
Pessoas

A possibilidade de transformação da população sem-teto através do empreendedorismo

Ex-morador de rua norte-americano descreve como ajudar pessoas na mesma condição a alcançarem o sucesso pessoal e profissional

POR Eric Visintainer | 12/11/2020 13h55

Ao longo de um ano e meio, entre 2016 e 2017, Andrew Funk, atual presidente da organização Homeless Entrepreneur, estava prestes a concluir a arrecadação de 300 mil euros para a sua startup e teria o nascimento do seu primeiro filho, quando o dinheiro foi mal administrado por gerentes e ele optou morar na rua por não conseguir prover para a sua família.

O norte-americano, hoje com 39 anos, e agora ex-sem-teto, trabalhava das 7 da manhã até a 1 da manhã, do dia seguinte, para ganhar 3 mill euros por mês, mas não tinha onde morar. Até que uma amiga o ajudou.

Hoje empreendedor de impacto social, ele compartilhou a sua história e de alguns dos 19 outros ex-sem-teto que tiveram as vidas transformadas pela sua atual empreitada, com foco no desenvolvimento pessoal e profissional destas pessoas pelo empreendedorismo, durante o Whow! Festival de Inovação 2020. Andrew também destacou como organizações e governos podem ajudar na mudança de vida para outros seres humanos que buscam uma nova oportunidade.

Programas de empregos pra moradores de rua

O empreendedor social mostrou uma imagem com sete pessoas vestindo camisetas, calças e sapatos, e questionou se alguém poderia distinguir quem ali era um morador de rua, sendo que cinco deles se encontravam nesta situação. “Sem-tetos são pessoas acima de tudo e isso é esquecido”, comentou.

Segundo o norte-americano, atualmente, a Homeless Entrepreneur possui 250 colaboradores e voluntários ao redor do mundo para proverem ajuda globalmente. E o principal programa da organização é chamado de HELP Program e já conta com 19 histórias de sucesso, que ele descreve como ter um emprego e um local para morar.

Mesmo durante a pandemia da covid-19, Andrew montou um outro projeto que beneficiou, de acordo com ele, moradores de rua em Chicago, nos Estados Unidos, Berlin, na Alemanha, pessoas na Espanha e também na América do Sul. Nesta nova iniciativa, a organização gravou as vozes dos moradores de rua para conectá-los com recursos necessários. Isso resultou em cinco empregos para as 19 pessoas listadas como histórias de sucesso do programa.

O empreendedor já esteve no Brasil, duas vezes, e passou alguns dias morando com sem-tetos.

Ser sem-teto está mais ligado ao não ter um emprego

Andrew também apontou que apenas 19% dos sem-tetos estão nesta condição por serem usuários de drogas, enquanto 35% têm como principal motivador a perda do emprego.

“A nossa missão é acabar com o cenário de moradores sem-teto e previnir que isso aconteça”, descreve.

“Os sem-tetos não são apenas pessoas que moram na rua, mas também as mulheres afetadas pelo abuso doméstico.”

Andrew Funk, presidente da organização Homeless Entrepreneur

Como objetivo até o final deste ano, Andrew quer abrigar 100 moradores de rua em Barcelona, onde tem sido o seu atual foco de trabalho, e escalar este modelo para melhorar a vida de 325 sem-tetos ao redor do mundo.

Ajuda do big data aos moradores de rua

O empreendedor social norte-americano comenta ainda que novas tecnologias podem ajudar a melhorar as condições dos moradores de rua. “O big data associado com redes sociais, arrecadação de fundos e blockchain, promove mais transparência para doadores e stakeholders, cria mais valor e coloca tudo em perspectiva”, afirma Andrew

Ele também aponta que as corporações têm a possibilidade de ajudar, através de treinamentos online, programas de voluntariados, doação de produtos e conectando os sem-tetos com oportunidades de emprego.

O principal programa de apoio da organização também promove o repasse dos ensinamentos obtidos pelos ex-moradores de rua, após um ano, para os novos participantes.

Inovação e impacto social

De acordo com dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em março deste ano, o Brasil possuía mais de 100.000 moradores de rua. E o desemprego no País também chegou a taxa de 14,4%, no final de outubro deste ano, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua Mensal (PNAD Contínua), o que equivale a 13,8 milhões de brasileiros, um recorde desde 2012, de acordo com a série histórica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

E para aprofundar em como o empreendedorismo e a inovação podem ajudar a mudar este cenário, na sequência da sua apresentação Andrew conversou com Jacques Meir, diretor-executivo de Conhecimento do Grupo Padrão.

Confira os principais trechos deste bate-papo abaixo:

Jacques Meir: Em qual momento você percebeu que esta seria uma grande causa?
Andrew Funk: Quando virei sem-teto. Você pode deixar a vida te levar ou se tornar uma pessoa mais forte. Quando iniciei como morador de rua, eu gravei as primeiras 24 horas do meu dia, como uma preparação para o que aconteceria comigo.

Você pode perder tudo, mas uma coisa ninguém pode tirar de você: as suas qualidades. E isso me motivou diariamente a me inspirar e para inspirar outras pessoas. Eu tentei focar em algo que poderia fazer e fazer bem feito.

JM: Há alguma diferença entre ser um morador de rua na Espanha e no Brasil? E como a situação dos sem-tetos é vista ao redor do mundo?
AF: Em Barcelona, um sem-teto pode caminhar nos bairros mais nobres e pegar meia garrafa de vinho e comida nos restaurantes. Mas no Haiti não há nada para pegar nem nos latões de lixo. Há uma diferença nos recursos de cada país e há um vão entre aqueles que precisam de ajuda e quem pode ajudá-los. Quando eu fui para São Paulo, me disseram para eu não dormir na rua porque eu poderia morrer. Me disseram para me separar da pobreza em São Paulo. A pobreza não é a mesma em todos os lugares.

A comunicação é a ferramenta mais importante. Precisamos entender a situação dos sem-tetos e temos uma obrigação com todos. Temos o hábito que analisar as pessoas pelo o que elas possuem. Ao final do dia, pessoas são pessoas e têm as mesmas necessidades básicas.

JM: Como podemos ajudar os moradores de rua a serem pessoas mais produtivas?
AF:
Eu lembro que cada sem-teto já foi uma criança e lembro a todos o que poderia ter acontecido para que esta pessoa se encontre nesta situação. E também, o que teria acontecido se estas pessoas tivessem recebido o amor necessário. A situação dos moradores de rua não é invisível, as pessoas é que estão cegas.

JM: Seria esta uma falha da democracia?
AF: A maioria dos moradores de rua não votam, então eles não são representados. Se não entendermos as pessoas que moram em nossos países, coisas terríveis podem acontecer como a pobreza e o terrorismo.

Políticas sociais falham na falta de dados. Há necessidade para um maior conhecimento sobre o que precisa acontecer e em conexões para que as pessoas serem protagonistas. Até que os moradores de rua votem, eles não eram ouvidos ou considerados. Em Madrid há uma faixa que diz: “Bem-vindo refugiados”. Mas existem pessoas dormindo abaixo desta faixa. Os governos focam em mais bem-estar, mas precisam de um papel mais atuante na inclusão destas pessoas.

JM: Como podemos utilizar a inovação como parte nesta transformação? 
AF: Passo a passo: tentar, cair, caminhar e depois correr. Faça um esforço para compreender e, então, você vai aprender como estas pessoas precisam da sua ajuda e elas vão compreender você.


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