A inovação aberta no segmento de alimentos - WHOW

Eficiência

A inovação aberta no segmento de alimentos

Vegetarianos representam 22 milhões de consumidores e flexitarianos, quem quer diminuir o consumo de carne animal, já são 60 milhões

POR Laís Côrtes | 05/10/2020 11h00 Imagem: Freepik Imagem: Freepik

Os Millennials estão aderindo a uma dieta baseada em grãos e alimentos frescos. A afirmação é de Alberto Gonçalves Neto, partner da AGN Consultoria e Negócios. Segundo ele, por volta de 2014 e 2015, os nascidos entre o início dos anos 80 e meados dos anos 90, começaram a exigir uma mudança no segmento de alimentos, a fim de combater enfermidades que decorrem de uma má gestão do que se consome, gerando obesidades infantil e adulta.

A discussão vez parte da palestra “Plant-based” na Oiweek de setembro, realizar pela 100 Open Startups, evento que contou com a parceria estratégica do Whow!. A com versa contou as participações de Amanda Pinto, marketing e Innovation da N.Ovo, Bruno Oliveira, head de Inovações e Novos Modelos de Negócios da Nestlé, DinahCristina Ferreira, Innovation Director in Business Development da Super Bom, Raphael Leibel, Innovation Manager da BRF, Vanessa Denardi, Novos Negócios da Verdali, Luiz Augusto Silva, Global Business Development na Notco, Bruno Fonseca, co-fouder na The New Butchers e Marcelo Doin, CEO da Nomoo, além de o executivo da AGN Consultoria e Negócios.

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A decolagem das startups de alimentos

“A partir de 2014, o consumidor passou a ter uma necessidade de alimentos mais saudáveis”, diz Alberto, quanto ao início dessa transição, que levou a diminuição da participação de mercado de algumas empresas, como Coca-Cola, Unilever, Mondelēz, entre outras. Segundo ele, o Brasil tem uma grande tendência no consumo de alimentos mais saudáveis, isso se dá ao fato de que nossa população é mais vaidosa, por ter o hábito da exposição do corpo e isso nos leva a nos preocuparmos com a saúde.

O Brasil tem um grande potencial de crescimento nesse mercado de produção e consumo alimentício. Em 2016, o Brasil já era o 5º maior em consumo de alimentos e bebidas sadios, de acordo com a Euromonitor.

Até 2017, a captação financeira por foodtechs era uma grande dificuldade, por ser uma determinada peregrinação. Dois anos depois, o maior player mundial hoje, Beyond Meat, empresa norte-americana, abriu capital e a sua ação saiu de quando ela fez o IPO, de US$ 26,00 dólares, para US$ 65,00, em apenas um dia. Empresas, startups e grandes indústrias, viram potencial naquele produto e isso começou a jorrar dinheiro nas startups de alimentos.

Hoje, esse mercado é constituído por startups, como grandes indústrias, afim de trazer soluções inovadoras. No Brasil, pequenas, médias e grandes estão atuando nesse mercado. A empresa Gerônimo, por exemplo, que produz alimentos à base de planta processada, agora fornece para a linha Taeq, do Grupo Pão de Açúcar.

Temos a Nomoo, do Marcelo Doin, que produz queijo vegano, para o escondidinho da linha Incrível da Seara.

Qual é o cenário, hoje, desse potencial?

De acordo com a Sociedade Vegetariana Brasileira, somente a população vegana no país está estipulada entre cinco a sete milhões de pessoas, vegetarianos representam 22 milhões de consumidores e flexitarianos, pessoas que consomem carne de origem animal, mas querem diminuir o mesmo, de acordo com a Euromonitor, já são 60 milhões.

Indústrias tradicionais e startups estão olhando para estes clientes e cada vez mais fazem parte desse mercado, como a Super Bom e a JBS.

Amanda, que trabalha no grupo Mantiqueira, maior produtora de ovos do Brasil, descreve o interesse e curiosidade de fornecer produtos que não agridam os direitos dos animais e o bem-estar dos mesmos e isso implica em terra, emissões de gases (CO2 e afins) e no uso de água. Em 2017, ela ouviu falar de startups, pela primeira vez, no Vale do Silício, que faziam produtos análogos aos de animais, através de tecnologia que pudesse fazer isso com a base vegetal. E no mesmo ano, foi decidido criar um produto que pudesse substituir o ovo animal e assim surgiu o N. Ovo. Uma vez que os focos da Mantiqueira e N. Ovo estavam apartados, a empresa-mãe optou por separá-las, bem como as equipes, tendo assim um grupo de gerenciamento novo para esse produto. 

Já o head de Inovações e Novos Modelos de Negócios da Nestlé aponta que a oferta de produtos vegetarianos cresceu 677%, entre 2014 e 2018, segundo dados da Mintel, e o mercado de bebidas vegetais aumentou em 76%, de 2018 para 2019, segundo a Nielsen. Esse mercado não é mais uma tendência, é uma realidade e cresce de maneira bastante acelerada. E o mercado brasileiro vem demandando mais desses produtos.

Ao fazer uma pesquisa, a Nestlé registrou que 29% das pessoas se sentem confortáveis e inclinadas a experimentarem produtos novos, de origem vegetal e 71% declaram que não gostariam por causa do sabor (63%), da textura (4%), dos aspectos nutritivos (12%), odor (9%), conveniência (26%) e preço acessível (13%).

Pesquisas e inovação aberta

alimentos Imagem: Freepik

A Super Bom é uma indústria que pertence à igreja adventista e tem como conceito uma alimentação vegetariana, sendo assim, gerar produtos, que venham de encontro com esse conceito (alimentos naturais, sem conservantes e de origem vegetal). A empresa iniciou essa jornada com produtos a base de soja, como substitutos de carne e produtos enlatados. Na década de 2000, iniciaram a primeira geração de produtos congelados e os produtos que ofereciam ficaram no mercado por nove anos, mesmo com as dificuldades de aceitação por parte do público. E tiveram de encerrar essa linha de congelados e só continuar com os substitutos de carne com enlatados.

Em 2012, segundo Dinah, a empresa percebeu um certo movimento no mercado, isso fez com que Cristina fizesse uma pesquisa do mesmo, indo à Coréia do Sul, Holanda, visitando o vegetariano Butcher, pioneiro na Holanda e os Estados Unidos. Isso fez que a equipe de P&D deles, começasse a buscar essas tecnologias, as matérias primas – que eles não tinham –, para poder abrir essa linha.

No ano passado a BRF lançou 85 novos produtos e ainda concretizou uma parceria, com a IBI-Tech, de Israel, para realizar um programa com a temática de desperdício e segurança de alimentos, o Emerge Labs, neste ano, um pouco antes da pandemia. Além disso, o BRFhub, a plataforma criada a fim de aumentar a conexão com o ecossistema de inovação e criarem novos negócios de impacto, lançou 12 desafios, com todas as etapas da cadeia que a BRF atua, comenta Raphael.

Experiência de consumo nos novos alimentos

A Verdali foi formada em 2014, focada no desenvolvimento e na pesquisa de produtos análogos. “A empresa trabalhou fortemente, para estruturar o parque fabril para produção em escala e redução de preços nos análogos”, explica Vanessa Denardi, representante da empresa.

Luiz Augusto diz que, a Notco é jovem, ainda, no Brasil, e que começou importando produtos da sede no Chile em março de 2019. Porém, perceberam que deveriam inovar esse modelo e que seria melhor fabricar por aqui. “É uma base 100% digital, é uma potência de pesquisa e desenvolvimento, criado para usar um método de inteligência artificial, para poder prever como misturas improváveis poderiam se comportar, juntas, para gerar, para o ser humano, uma experiência de consumo, que fosse muito próxima, ou mais próxima o possível à experiência de consumo do que é item análogo de substituição, o item análogo de fonte animal”, declarou.

Como vegano, Bruno ouvia muitas pessoas alegarem que queriam diminuir o consumo de carne animal, que admiravam o fato de ele ter conseguido “abrir mão” do paladar. Quando se deparou com a tecnologia, para imitar a textura, sabor, odor da carne, ele já tinha ideia do que queria fazer da vida dele e que está fazendo, trabalhando no desenvolvimento das carnes análogas.

Então, ele lançou o Butchers, no final de 2019, tendo fábrica própria, utilizam-se bastante do que chamam de inteligência natural, o conhecimento da engenharia de alimentos, as escolhas certas dos ingredientes e muita tecnologia no processo. “Temos 4 SKUs, a gente tem a linha bovina, frango e a que acabamos de lançar a linha o New Fish, o primeiro salmão a base de plantas”, declara o cofundador.

Já a Nomoo foca em trazer um produto que abranja todos os benefícios do laticínio, sem a parte de que possa fazer mal ou causar alergias. A startup produz uma linha completa de laticínios para todo o Brasil e, agora, começou a exportar o produto para outros países, comenta Marcelo. Ele ainda diz que está sentindo um crescimento muito forte, mesmo com a pandemia. Desde maio, está superando recorde de faturamento e teve algumas oportunidades de mercado na Europa, com exportações para Portugal.

Grandes empresas distribuem por todo o Brasil e apresentam uma necessidade de inovação. Do outro lado, as startups têm anseio por crescer. Então, há uma simbiose. O difícil é conciliar confiança e interesses comuns, sem que isso seja uma relação de aquisição. “Essa próxima década, que está se iniciando, vai mostrar que vai acontecer muita coisa interessante entre companhia grande e companhia pequena”, apontou, Luiz, quanto ao diferencial que será, fazer essas diretrizes se conciliarem.

“A gente vende o almoço, para pagar a janta”, comenta Luiz, enfatizando, que é preciso que a companhia seja ágil, consiga se desenvolver, ou a companhia deixa de existir.


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