10 Empresas que querem transformar a comida para além do hamburguer vegetal - WHOW

Tecnologia

10 Empresas que querem transformar a comida para além do hamburguer vegetal

Conheça opiniões e cases de fundos de investimento, consultorias, startups e grandes empresas sobre como transformar a comida e os hábitos de consumo

POR Raphael Coraccini | 06/11/2019 15h58 Imagem: Pexels Imagem: Pexels

Os hábitos alimentares estão mudando junto com a comida. A aparição dos hamburgueres vegetais nas prateleiras dos supermercados e em restaurantes conhecidos pela qualidade da sua carne acontece ao mesmo tempo em que pipocam cada vez mais reality shows e programas variados sobre o tema da culinária Brasil à fora.

Essa mudança de hábito sugere um paradoxo. Ao mesmo tempo em que o consumidor quer se alimentar rapidamente porque sua rotina pede essa agilidade, ele vê cada vez mais interesse em ser chefe, em produzir o próprio alimento, resgatando alguns hábitos antigos, revertendo uma tendência das últimas décadas do distanciamento das pessoas com o alimento, agravado pela explosão dos fast foods.

“Precisamos melhorar tudo, demanda, logística, preço, dados, IA, cadeia de valor, suprimentos, pagamentos, inovação sustentabilidade”

Fabrício Bloisi, CEO da Movile

Um meio termo está emergindo para garantir comidas mais artesanais para consumo rápido durante uma rotina agitada. Iniciativas como da Gard Manger, de aluguéis de pedaços de terras para plantio; da Fruta Imperfeita, de plano de assinatura para consumo de frutas fora do padrão estético; e da Gastromotiva, que reúne produtos doados para dar a pessoas com dificuldade e evitar o desperdício, vão no sentido de transformar a relação com a comida, da produção ao descarte.

Em apenas quatro meses desde o início da sua comercialização, os hambúrgueres feitos com ingredientes à base de plantas já representam um terço da venda bruta total dos hambúrgueres congelados comercializados em toda a rede Pão de Açúcar na cidade de São Paulo. Nesse período, a participação desses produtos saltou de 3% para 30%. Segundo o Kantar Worldpanel, 27% dos brasileiros dizem estar reduzindo o consumo de carne.

Para Jan Handel, head de Marketing e Desenvolvimento de Negócios da Nestlé, a busca do consumidor por produtos mais naturais está voltada agora não só para snaks, aqueles lanches rápidos, mas para comida de verdade, com ingredientes conhecidos dos consumidores, menor quantidade produtos processados e sem adições.

A multinacional suíça tem olhado com especial atenção para esse mercado de saudáveis, que cresce 20% ao ano. A empresa adquiriu mais de 50% da equatoriana Terrafertil, fundada em 2005 e que hoje atua em oito países e disputa a liderança em alimentos e bebidas naturais e produtos plant-based na América Latina.

A tecnologia tem possibilitado essa mudança de hábito alimentar mais rápido do que se poderia imaginar. “A carne de laboratório custava 250 mil dólares em 2013, hoje, está 50 dólares. Apesar dos muitos dilemas éticos que contém, o que é certo é que será o hamburguer do futuro” afirma Cynthia Antonaccio, fundadora e CEO da Equilibrium, consultoria especializada em health marketing e inovação alimentar.

A especialista alerta, porém, que a recriação da comida não poderia estar limitada ao hamburguer sem carne ou produzido dentro de um laboratório. Os produtos de origem animal continuarão a ser consumidos em grande quantidade e será preciso haver um controle rígido sobre toda a cadeia para possibilitar produção e distribuição saudáveis e eficientes. “Quero ser respeitada como onívora, saber de onde vem a carne e o ovo que eu como”, diz Cynthia.

“A carne de laboratório custava 250 mil dólares em 2013, hoje, está 50 dólares. Apesar dos muitos dilemas éticos que contém, o que é certo é que será o hamburguer do futuro”

Cynthia Antonaccio, fundadora e CEO da Equilibrium

Segundo o Ibope, em pesquisa realizada em 2018, 30 milhões de brasileiros são vegetarianos. O desafio da nova indústria de alimentos não é falar a esses, já convertidos, mas atrair os que ainda veem os produtos tradicionais como única opção. E esse movimento tem ganhado tração. 50% dos clientes da Belief, plataforma de delivery de produtos plant-based, são comedores de carne.

Para Pedro Vilela, sócio-fundador da Rise Ventures fundo especializado em iniciativas voltadas para o consumo sustentável e investidor da Belief, diz que, hoje, os maiores investidores no mercado de hambúrgueres vegetais são as empresas de carne. Um exemplo é o grupo JBS, uma das maiores empresas pecuaristas do mundo, que já tem seu próprio hamburguer de proteína de soja. O mercado de alternativas à carne deve crescer anualmente cerca de 40% e a Seara, principal marca do grupo pecuarista, espera alcançar 15% desse mercado até 2022, segundo matéria do Valor Econômico.

abre food 1 Unsplash

Outras proteínas

No maior evento de supermercadistas do Brasil, 2019 foi o ano do embate entre diferentes marcas de hambúrgueres vegetais, mas outra disputa que chamou a atenção foi dos iogurtes com maior quantidade de proteína em sua fórmula. “Saímos da era da retirada na alimentação, que foi de reduzir gordura trans, glúten e açúcar, por exemplo, para a era da adição. Hoje, o desafio é adicionar nutrientes”, destaca a consultora.

Talvez o maior exemplo dessa nova era dos super alimentos seja a spirulina, apontada pela OMS (Organização Mundial da Saúde) com um dos alimentos do futuro por ser uma das maiores fontes de proteína e que oferece até 15 vezes mais ferro que o feijão, além de conter mais 100 nutrientes diferentes.

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A guerra das proteínas tem um novo participante, a spirulina

Barreiras

Apesar do crescimento, o mercado ainda encontra algumas resistências dos consumidores por conta do sabor. “O produto natural deveria ser mais saboroso. Temos ainda a herança do diet, que ficou conhecido como sem açúcar e sem gosto”, reconhece Handel, da Nestlé. Outra barreira é a do preço. “Leite vegetal nos EUA é duas vezes mais caro que o comum. No Brasil, o leite comum custa R$ 3 na média. O vegetal chega a custar de 10 a 20 reais”, conta.

O desafio hoje é encontrar carne e sabor com outra tecnologia. A gente precisa de muita massa crítica para criar o mesmo alimento com mais tecnologia”

Gustavo Guadagnini, diretor do The Good Food Institute Brasil

Pedro Vilela, da Rise, reafirma a distância entre o preço dos produtos e a capacidade de consumo dos brasileiros. “O desafio (do mercado de alimentos naturais) é tracionar com escala. O Brasil é um país de classes C e D e os produtos são voltados para A e B”. O investidor destaca também o timing dos investimentos com um ponto sensível do desenvolvimento do mercado de saudáveis. “Se entrar muito antes, pode ter problemas para tracionar”, completa.

Disputa semântica

No começo deste ano, o Parlamento europeu votou pela proibição dos termos “hambúrguer”, “linguiça”, “escalope” e “bife” para descrever produtos que não contêm carne. Em 2017, o Tribunal de Justiça Europeu já havia proibido o uso dos temos “leite”, “manteiga” e “creme” para produtos não lácteos. Enquanto os defensores dos produtos verdes dizem que as decisões foram dirigidas pelo lobby da indústria da carne europeia, os legisladores dizem se tratar de evitar uma confusão nos consumidores. No Brasil, o deputado federal Nelson Barbudo (PSL-MT), apresentou projeto de lei com o intuito de proibir o uso de termos que liguem produtos vegetais à proteína animal.

Mais com menos

A Pink Farms, a maior fazenda urbana vertical da América Latina, encontrou maneiras de reduzir o gasto de água para o plantio de hortaliças e eliminar o uso de agrotóxicos. “Hoje, um terço da produção mundial de alfaces é desperdiçada e 72% delas são cultivadas com agrotóxico”, lembra Alberto Gonçalves, diretor comercial da Pink Farms

Usando tecnologias simples, como iluminação 100% artificial com uso de lâmpadas azuis e vermelhas, sala de cultivo isolada e controle das variáveis climáticas, a startup reduziu em 95% o uso de água para produzir verduras sem defensores. Os produtos são vendidas no varejo pelas redes Oba, Natural da Terra e Quitanda.

Segundo Gonçalves, a startup é 100 vezes mais produtiva do que a média dos pequenos produtores rurais e esse aumento exponencial da produção é fundamental para um mundo que deve ter perto de 10 bilhões de pessoas até 2050. “A população cresce e não haverá capacidade de alimentação para todo mundo”, avalia Gonçalves.

Para ampliar a sua produção e fabricar produtos livres de conservantes, corantes ou aromas artificiais, a Verde Campo, que está no mercado há 19 anos, investiu R$50 milhões na planta em Lavras, sul de Minas. “Os novos investimentos permitiram à empresa assumir o compromisso de eliminar aditivos artificiais de seus mais de 60 itens até o final de 2019. O pontapé inicial foi dado com os iogurtes que representam metade do faturamento da companhia e já estão reformulados. A empresa aposta que este diferencial pioneiro na indústria de lácteos ampliará sua demanda e estima um crescimento acima dos 30% em 2019”, diz comunicado da empresa, que teve crescimento de 20% em 2018.

Escassez

Com mais de 7 bilhões de pessoas, o mundo já possui 800 milhões de pessoas vítimas da insegurança alimentar, ou seja, aquelas que não tem certeza se conseguirão comer até que deitem para dormir. Gustavo Guadagnini, diretor do The Good Food Institute Brasil, ONG voltada para o desenvolvimento do mercado alimentar sustentável, retoma a discurso malthusiano do século 18 sobre o crescimento aritmético da produção alimentar enquanto a população cresce em proporção geométrica. “A gente não consegue aumentar a produção”, alerta. “O desafio hoje é encontrar carne e sabor com outra tecnologia. A gente precisa de muita massa crítica para criar o mesmo alimento com mais tecnologia”, completa Guadagnini.

A preocupação está em como produzir principalmente proteína de maneira mais eficiente. O item essencial na dieta não está entre as maiores culturas do mundo e acesso a esse tipo de alimento é escasso em muitas regiões do mundo e nas que é abundante há um problema severo de eficiência. “Para produzir apenas uma caloria de proteína são necessárias nove calorias de outros alimentos que são dados para o animal se desenvolver”, alerta o representante da ONG.

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Combater a escassez alimentar vai além de aumentar a eficiência na produção, afirma Fabrício Bloisi, CEO da Movile, fundo dono do iFood, ao falar sobre como o Brasil é ineficiente ao longo de toda a cadeia. “A gente é ruim para caramba hoje no Brasil. Como vamos fazer isso como melhores do mundo? Precisamos melhorar tudo, demanda, logística, preço, dados, IA, cadeia de valor, suprimentos, pagamentos, inovação sustentabilidade”, enumera. “A gente está desenvolvendo tecnologia das mais desenvolvidas do mundo. Estamos investindo bilhões, colocando muito dinheiro em P&D”.

Na parte da logística, o iFood fazia 25 mil entregas em 2014, hoje, são cerca de 20 milhões de entregas. “O iFood tem inteligência para fazer isso. É necessário o iFood e o Brasil fazer isso agora. Eu consigo reduzir preços de comida usando AI. Se eu conseguir planejar a produção e reduzir desperdício, que é muito grave no País”, garante o executivo.


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